Conto de Pandêmia
O dia em que a Terra parou, parecia loucura quando era ouvido na voz de Raul Seixas, mas de repente quando tudo fluía para o bem ou para o mal na vida de cada um nós veio a notícia de que tudo seria fechado, nada de eventos, escola, bares, restaurantes, lojas. Somente serviços essências! Ué, achei que escola era essencial? Pois é! Deveria, mas essa é uma outra história.
Enfim, nada que pudesse causar aglomeração, nada de abraços, nada de netos visitando avós, nada de beber no mesmo copo, cada um com a sua intimidade e individualidade.
Reinventar foi a palavra do momento, assim como novo normal, reinventamos nossas experiências, relações, formas de fazer. Reinventamos aniversários, formas de trabalhar, de nos relacionar e de criar os filhos e reinventamos principalmente nossa forma de pensar.
E assim o dia em que a Terra parou virou o ano em que a Terra parou, e este ano virou dois e a gente nem sabe mais quanto tempo isso vai durar. E porque? Por causa de um novo vírus pequenino.
Aprendemos a nos relacionar a distancia, a manter tudo muito bem higienizado, a usar mascaras e tomar cuidado com tudo e com todos.
Teve gente que não acreditou muito, afinal ainda tem gente que afirma que a Terra é plana, teve gente que achou que tomando determinados remédios poderia prevenir, quando o único remédio que prevenia seria tomar cuidado. Teve gente que precisou ver seus próximos ficarem doentes ou morrerem.
A ciência passou a ser mais valorizada, por alguns, os professores passaram a ser mais valorizados, por alguns, e os médicos e enfermeiros passaram a ser mais valorizados, por alguns e até os coveiros passaram a ser mais valorizados.
Da minha parte posso dizer que no começo nem doeu, odeio sair de casa mesmo, mas minha vida virou de ponta cabeça quando minha irmã me chamou para ser babá dos seus dois filhos (1 e 5 anos), eles estavam sem escola e ela precisava voltar ao trabalho presencial, o meu ainda seguiria remoto por mais tempo. Foi então que me mudei de Porto Alegre para São Paulo para morar com eles.
Nunca pensei em ser mãe, mas já tinha sido professora de educação infantil, então criança é uma área que tenho facilidade, no começo até eu e as crianças nos encaixarmos no mesmo ritmo foi complicado, mas aos poucos tudo se acertou e hoje tenho uma sensação de gratidão enorme quando penso que se não fosse a pandemia não estaria aproveitando este momento e vendo estas crianças cresceram, e essa foi só uma das bênçãos que recebi.
As outras bênçãos, nossa foram várias, retomei meu antigo emprego de forma remota, comecei a faculdade que sempre sonhei em fazer, dei entrada em um apartamento, estou morando alguns meses em Porto Alegre e outros em São Paulo, ela contratou uma babá ótima depois de meses comigo porque meu trabalho pode voltar a ser presencial a qualquer momento.
Também perdi pessoas queridas...essas não voltam, mas carrego elas comigo em meu coração.